terça-feira, 22 de setembro de 2009

ESTASTÍSTICA DA INFORMATICA NA EDUCAÇÃO:

MISÉRIAS DEVIDAS AO USO DO COMPUTADOR NA EDUCAÇÃO – NO LAR E NA ESCOLA

Valdemar W. Setzer

Depto. de Ciência da Computação, Instituto de Matemática e Estatística da USP
www.ime.usp.br/~vwsetzer

Escrito em 1/5/05; publicado na revista discutindo Ciência, Ano 1, No. 2, pp. 59-61, na seção "Debate: O computador na educação: ajuda ou atrapalha?" com o título "As misérias que pode causar";
esta versão (contendo o original, um pouco mais extenso do que o publicado, mais algumas revisões) é de 15/9/05

Recentemente fui convidado a proferir, em uma escola, uma palestra sobre o uso de computadores por crianças e jovens. Até aí nada de novo. A novidade estava no motivo de me terem convidado: os professores estavam preocupados, e muitos pais desesperados, com o resultado do uso de computadores pelos alunos e filhos. Em geral, o rendimento escolar estava piorando nas crianças e jovens que usavam o computador, principalmente os que têm computador em casa e, em muito maior grau, em seu próprio dormitório, sem nenhum controle por parte dos pais. Aplica-se aqui uma das "leis de Setzer" (ver em meu site): "A miséria produzida pelo ser humano ultrapassa as previsões mais pessimistas."

Há dezenas de anos tenho prevenido, por meio de artigos, livros, palestras e cursos, de que o computador produz prejuízos nas crianças e jovens quando usado antes da puberdade; consegui até, conceitualmente, estabelecer uma idade mínima ideal para que se coloque um jovem em contato com o computador: 17 anos (algo difícil de encontrar hoje em dia...), posteriormente confirmada por experiências feitas no meu Instituto. Mas eu jamais imaginava que os prejuízos seriam tão enormes quanto estão se revelando na prática.

Como eu previra, várias pesquisas recentes, têm mostrado que não há benefícios, do ponto de vista de escolarização, como mostrado em testes, no uso de computadores na educação; pelo contrário, crianças e jovens que os usam tendem a ter menor rendimento nesses testes do que os que não os usam. Isso, até em testes de matemática! (Ver, por exemplo, os artigos de J. Angrist e V. Lavy, 2001, analisando os efeitos negativos da introdução, em larga escala, de computadores nas escolas em Israel e T. Fuchs e L. Woessman, 2004, analisando resultados negativos em matemática e habilidade de leitura de uma centena de milhares de estudantes que fizeram o exame PISA, aplicado em 32 países, nos casos de usos de computadores em lares e em escolas.)

Também previ os prejuízos quanto ao relacionamento social, mas não previ que as pobres crianças e os jovens fossem agarrados de tal modo pelo computador e sua filha, a Internet, que iriam deixar de dormir adequadamente, iriam deixar de fazer suas tarefas escolares, iriam ter sua fala e escrita prejudicadas, iriam ter problemas de atenção e concentração, da maneira extensa como está ocorrendo. Para entender os prejuízos cognitivos, emocionais e por que o computador agarra os usuários – e muito mais intensamente crianças e jovens – da maneira como ele o faz, vamos analisar brevemente sua influência no pensar, no sentir e no querer.

Qualquer comando que se dê ao computador, seja ele sob forma de um pequeno texto ou pelo acionamento de um ícone, provoca no computador a execução de uma função estritamente matemática, de manipulação de símbolos. Isso se deve ao fato de o computador ser uma máquina matemática, de manipulação lógica de símbolos discretos. Portanto, sempre que se dá um comando ao computador – e é impossível usá-lo sem dar comandos a ele –, como alinhar verticalmente um texto, buscar uma página na Internet, etc., dispara-se na máquina uma série de funções matemáticas. Ora, para ativar essas funções, é necessário empregar um raciocínio puramente matemático; os usuários não percebem esse fato, pois estão acostumados a encararem a matemática como uma série de fórmulas, equações, teoremas, construções geométricas, etc. Do mesmo modo que, em uma conta de somar, não é possível pular um dos algarismos de uma das parcelas, também não se podem pular certas ações que se deve comandar o computador a executar. Por exemplo, para buscar alguma página na Internet, é sempre necessário ativar antes algum navegador e escrever o endereço de maneira absolutamente exata, como cada parcela da soma, acionando em seguida o comando de buscar a página com o endereço escolhido.

O problema é que esse raciocínio matemático lógico-simbólico, determinista e seqüencial, expresso em uma linguagem formal, não é próprio para crianças e jovens antes da puberdade. Para a justificativa desse fato, leiam-se meus artigos e livros (ver em meu site). No entanto, uma observação acurada já pode mostrar que o pensamento das crianças e jovens não é estritamente lógico, não é abstrato, desligado da realidade e quadrado como o imposto pelo computador. O computador, forçando aquele tipo de raciocínio, afeta a maneira de pensar, acelerando um processo que deveria levar muitos e muitos anos até atingir a maturação necessária para que ele possa manifestar-se adequadamente, sem causar prejuízos. Não conheço pesquisas nesse sentido, mas se fossem feitas, prevejo que se constataria que o uso precoce do computador, devido à imposição desse tipo de pensamento, prejudica a fantasia, a imaginação, e a criatividade – justamente capacidades que caracterizam a infância e a juventude. De certo modo, quando um adulto tem muita imaginação e é criativo – principalmente em áreas não formais, como a social e a artística –, pode-se dizer que ele conservou em si uma boa dose da sua imaginação infantil.

Quanto aos sentimentos, o computador é uma máquina muito excitante, pois se pode aprender muito rapidamente a comandá-la e ela sempre executa o que se a comanda a fazer, o que dá uma sensação muito grande de poder. Como é uma máquina virtual, pode-se experimentar com ela sem temer conseqüências físicas desastrosas. Muitas pessoas aprendem a usar um certo programa simplesmente por tentativa e erro, em lugar de ler o manual correspondente. Vários professores exaltam o fato de o computador aceitar quaisquer erros sem inibir o usuário – como se a educação não fosse um processo contínuo de orientação, que deveria ser amorosa. Isso não pode ocorrer com uma máquina impessoal, que trata todos os usuários exatamente da mesma maneira. Em uma classe, um professor-gente pode reconhecer que um aluno respondeu erradamente a uma pergunta, talvez por dificuldade de se exprimir, mas o seu conhecimento é correto – jamais um computador terá essa capacidade.

Não se venha com a idéia, totalmente descabida, que um dia poder-se-á introduzir sentimentos no computador, como mostrado nos filmes absurdos O Homem Bicentenário (Columbus) e Inteligência Artificial (Spielberg): sentimentos são absolutamente individuais, cada pessoa sente os seus e não pode fazer uma outra sentir o que sente. No entanto, os computadores são máquinas universais (qualquer computador pode simular qualquer outro, dada capacidade suficiente), e as máquinas que não são digitais têm sempre um projeto e uma construção universais (ver mais detalhes em meu artigo "I.A. – Inteligência Artificial ou Imbecilidade Automática? As máquinas podem pensar e ter sentimentos?", em meu site. Jamais um computador terá sensibilidade – no sentido humano – para guiar uma atitude educacional dependendo de quem o usa. Essa impessoalidade acaba influenciando os sentimentos das crianças e dos jovens, pois o ser humano incorpora todas as suas vivências. Crianças e jovens estão muito abertos para o meio-ambiente; se não fosse assim, crianças não aprenderiam por imitação, a grande ferramenta educacional até os 7 anos de idade e não teriam tanta facilidade para aprender línguas estrangeiras. Em outras palavras, eles não têm o isolamento típico de adultos, fruto do desenvolvimento da auto-consciência (quase inexistente, por exemplo, em crianças até 3 anos de idade que, em geral, não usam a palavra "eu" ao se referirem a si próprias, e sim o próprio nome).

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